segunda-feira, 15 de março de 2021

#24| Podcast Revelando-Ser| "O dano da violência psicológica no abuso sexual"

 


Para escutar o episódio, clica aqui: #24| O dano da violência psicológica no abuso sexual

Neste episódio continuamos a tomar como base o filme "O príncipe das marés (1991)" para refletir sobre o contexto em que o abuso sexual acontece e a importância de reconhecermos como as violências psicológicas podem agravar ainda mais os danos causados por esta situação.

Ressaltamos que ainda parece haver uma percepção social de que uma violência que não é física não é tão violenta assim, sendo necessário não subestimar o impacto que a violência psicológica pode ter na vida das pessoas adultas que passaram pelo abuso sexual na infância e adolescência.

Para conhecer mais sobre o projeto, visite o site revelandoser.org , pelo Instagram @revelando_ser ou pelo e-mail revelandoser@gmail.com

Ficha Técnica:

Vozes: Guilherme Assunção e Quezia Cordeiro

Gravação, edição e vinheta: Marcelo Sena

Realização: Projeto Revelando-Ser

Gravado no dia: 12/02/2021


quarta-feira, 3 de março de 2021

Celebrando a vida!

Hoje é meu aniversário!

E, tal como já é um pouco clichê, passei o dia pensando sobre a minha vida, sobre o que já foi vivido e para onde ela tem apontado nos últimos tempos.

Passei o dia de hoje na companhia da minha família: minha esposa, meus filhos e uma cachorrinha que tem nos tirado a paciência em muitos momentos...rs

Estranho me sentir convidado a celebrar a minha vida num momento onde a morte tem se tornado tão concreta em tantos lugares diferentes. Estranho receber tanto carinho e felicitações quando sei que muitas pessoas estão passando por situações limítrofes em suas vidas.

Mas, sem deixar de ser atravessado pela ambiguidade, me senti podendo celebrar. Passei o dia de hoje trabalhando, atendendo alguns clientes e, principalmente, organizando uma última aula que darei hoje à noite para finalizar um curso de extensão que começou há um mês.

Pensei comigo: “noite do meu aniversário e o que estarei fazendo? Trabalhando! Rsrs.

Mas não é somente trabalho.

Decidi ser psicólogo quando estava com 15 anos passando por um monte de confusões que pareciam não ter fim e foi nesse espaço que consegui me encontrar. Naquele momento escolhi o que queria fazer para o resto da vida: ajudar pessoas a passarem pelos seus momentos mais difíceis. É fato que eu não fazia lá tanta ideia de tanta coisa que estaria envolvida nessa escolha, mas fiz de maneira muito verdadeira. E isso que tenho feito de lá pra cá.

Atualmente, trabalhar com o que eu trabalho me traz um sentido maior para a vida. Logo eu, que, durante muito tempo, achei que não tinha lá muito sentido estar vivo.

Trabalhar especificamente com a temática do abuso sexual tem me preenchido de maneira muito significativa nos últimos anos.  Eu me sinto realizado a cada pessoa que tenho podido ajudar, a cada profissional que consigo tocar para despertar mais reflexões no intuito de promover, a longo prazo, uma mudança maior na sociedade em relação a este tema. Este tema me toca de várias maneiras, desde um lugar mais profissional, até atravessando a minha vida por estar tão próximo de mim, na minha família, amigos muito próximos, etc.

Com esse curso de extensão, e outros desdobramentos que já estão vindo com ele, sinto que começo a alcançar ainda mais pessoas, começo a me sentir ainda mais realizado e faz todo o sentido do mundo, comemorar meu aniversário dando mais passos nessa direção.

Quero muito agradecer ao pessoal do @conexaoformativa pelo convite, por abrirem espaço para esse movimento todo acontecer fora e dentro de mim.

Há quem diga que um mês que antecede o dia do aniversário é um momento de muitos desafios... Eu tive sim alguns deles. Mas foi mais significativo ter passado esse período preparando, incentivando, nutrindo, organizando e compartilhando tudo que tem feito muito sentido para mim com outras pessoas e ver no retorno delas o quanto aquilo também fazia sentido para elas.

Então, ao pensar no passado, presente e futuro, sinto uma sensação de contentamento, de poder seguir o fluxo da vida com mais leveza e direção. Já foi tudo muito difícil e quero muito poder ajudar outras pessoas a sentirem que a vida pode ter muito mais sentido do que tem nesse momento. Por isso escolhi a imagem da postagem. É um pouco disso tudo que esse processo descreve.

Gratidão a todes que contribuíram comigo durante essa jornada!

Simbora que a aula está quase começando! Rsrs

Em breve trago outras novidades!


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

#23| Podcast Revelando-Ser| "REVELANDO FILMES: O príncipe das marés (1991)"


Para escutar o episódio, clica aqui: #23| REVELANDO FILMES: O príncipe das marés (1991)

ALERTA DE SPOILER!

Os filmes que tocam na temática do Revelando-Ser têm sido um instrumento muito facilitador para que possamos compreender um pouco mais sobre toda a complexidade, nuances, desafios e possibilidades dentro do trabalho com as pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência.

Neste quarto episódio do REVELANDO FILMES conversamos sobre o filme "O príncipe das marés (1991).

Escolhemos esse filme por ele retratar muitas coisas que já estamos falando nos demais episódios do podcast, seja sobre a força do segredo que envolve o abuso sexual, ou ainda questões referentes a um processo terapêutico da pessoa adulta, incluindo também um olhar mais atento para as dificuldades que os homens passam ao terem sido abusados sexualmente na infância e adolescência. 

Abaixo a sinopse:

Tom Wingo (Nick Nolte) é um treinador de futebol americano desempregado da Carolina do Sul, que vai a Nova York apoiar a irmã, uma poetisa, que tentou o suicídio. Lá ele se envolve com Susan Lowenstein (Barbra Streisand), a psiquiatra que cuida dela, mas seu casamento em crise e seus filhos, além de um terrível segredo de família, perturbam sua mente. (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-59396/)

Para conhecer mais sobre o projeto, visite o site revelandoser.org, pelo Instagram @revelando_ser ou pelo e-mail revelandoser@gmail.com

Ficha Técnica

Vozes: Guilherme Assunção e Quezia Cordeiro

Edição e Vinheta: Marcelo Sena

Realização: Projeto Revelando-Ser

Gravado no dia: 03/02/2021


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

"Aquela tarde nunca acabou..." - Jogo Perigoso (2017)


 TRECHO DO FILME

"- A questão, Jessie, é que você se casou com a única dinâmica que conhecia. Você era uma garota, ele era um homem. Nunca conseguiu escapar disso. Aquela tarde nunca acabou.

- Já não basta eu estar aqui? Também preciso estar lá? De novo?!

- Me diga você...

 Falar sobre as pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência implica em lidar com uma série de complexidades que nem sempre são fáceis de serem trabalhadas dentro de um processo psicoterapêutico.

Esta cena do filme Jogo Perigoso (2017) retrata uma dinâmica que tenho acompanhado nos processos de muitas pessoas adultas que me procuram.

Na cena, Jessie (personagem principal) é uma mulher adulta que passou por uma situação de abuso sexual bem no início da adolescência e, como a maior parte das crianças e adolescentes que passam por essa situação, não teve a possibilidade de elaborar esse fato quando aconteceu, guardando esse segredo por toda a vida. O diálogo citado acontece quando uma personagem do filme que conhece a Jessie muito bem diz que ela ainda vivia aprisionada naquele passado. E que, mesmo ela não pensasse sobre o abuso sexual, tinha feito várias “escolhas” da sua vida influenciada por aquele evento. A personagem insiste para que Jessie olhe para o seu passado para encontrar a saída da prisão bem concreta que estava vivendo no momento presente.

Volto para as pessoas que me procuram. Muitas pessoas adultas abusadas sexualmente na infância e adolescência desenvolvem uma série de consequências durante a sua vida que tem uma relação íntima com aquele evento do passado. Porém, fez parte do movimento de sobrevivência desta pessoa não olhar para aquela experiência para não sofrer ainda mais. Logo, aquela criança ou adolescente se torna uma pessoa adulta que carrega uma série de comportamentos sem nem conseguir entender que estes são um desdobramento de algo que parecia ter ficado lá atrás, mas torna-se presente em vários momentos da vida.

Na psicoterapia com estas pessoas, quando o abuso sexual começa a aparecer como algo mais significativo, é muito comum que elas sintam dificuldades em dar o espaço necessário para que essa demanda surja com mais nitidez. Tal como a Jessie do filme, a pessoa já está se sentindo muito mal por estar vivendo situações de depressões, ansiedades, dificuldades nos relacionamentos afetivos e sexuais, baixa autoestima, ideações suicidas, etc. Quando a psicoterapia caminha para adentrarmos nessas memórias do “passado”, a pessoa adulta pode se sentir ainda mais desolada. Tal como a Jessie pode perguntar: “Já não basta todo o sofrimento que tenho sentido na minha vida atualmente? Eu ainda tenho que lembrar daquelas situações do passado. Justamente aquelas que eu passei a vida toda tentando esquecer?!”

Responder a esse questionamento não é fácil. É como se a pessoa sentisse que é coisa demais para ela dar conta de uma vez só. E ela tem razão! Por isso que, em muitos processos terapêuticos, é preciso se ter um tempo maior para que se compreenda o impacto que um abuso sexual teve na vida de quem passou por ele e seus desdobramentos naquela pessoa adulta que me procura.

Tal como no filme, muitas vezes é necessário revolver este passado para encontrar as chaves que podem nos ajudar a lidar melhor com as prisões que vivenciamos no momento presente. E é importante que tanto o profissional quanto o cliente saibam que os primeiros momentos de entrar em contato com essa demanda silenciada por tantos anos podem ser muito desafiantes. Pode parecer até que as coisas estão piorando ao invés de melhorar. Mas tenho podido acompanhar várias pessoas e constato que, após esse deserto inicial, em muitos casos é possível para a pessoa ir encontrando, aos poucos, um lugar melhor consigo mesmo e com a sua própria história.

Que possamos, enquanto profissionais e pessoas, nos disponibilizar a entender mais dessas complexidades para podermos facilitar que as pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência possam saírem mais dos seus isolamentos, dos seus silêncios.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

#22| Podcast Revelando-Ser| "Presença Facilitadora: Um lugar de escuta e acolhimento"



Para escutar o episódio, clica aqui: #22| Presença Facilitadora: Um lugar de escuta e acolhimento

Neste episódio retomamos um pouco do episódio #17, onde falávamos sobre como as pessoas próximas poderiam ajudar às pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência. 

Conversamos sobre as três atitudes facilitadoras propostas por Carl Rogers no intuito de explicitar melhor o que está na base da nossa escuta e postura diante das pessoas que nos procuram.

Importante ressaltar que esse episódio não é feito somente para os psis. Sentimos que todas as pessoas podem se beneficiar ao conhecerem um pouco mais do que o Rogers propõe, enquanto um jeito de ser e de relacionar com as outras pessoas.

Para conhecer mais sobre o projeto, visite o site revelandoser.org , pelo Instagram @revelando_ser ou pelo e-mail revelandoser@gmail.com

Ficha Técnica:

Vozes: Guilherme Assunção e Quezia Cordeiro

Gravação, edição e vinheta: Marcelo Sena

Realização: Projeto Revelando-Ser

Gravado no dia: 22/01/2021

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Minha saúde mental também é social e política



Gravar o último podcast não foi fácil! 

Na sexta feira passada, dia 15.01 gravamos mais um episódio do podcast do projeto Revelando-Ser. Ele foi publicado no dia 21.02.21 (LINK)

Para quem não conhece, o objetivo desse projeto é desconstruir o muro do silêncio que existe em volta das pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência.

Inspirados pela campanha do Janeiro Branco, nos planejamos para falar de aspectos que dizem respeito ao abuso sexual e que influenciam diretamente na saúde mental das pessoas que passam por essa situação.

Porém, naquela sexta eu acordo vendo as várias notícias da situação que estava acontecendo em Manaus. Saber que pessoas estavam morrendo por falta de oxigênio depois de tanto tempo de pandemia, foi muito difícil. Um sentimento ruim gritou dentro de mim. Na verdade, o que ficou pesando em mim não foi somente esse evento, mas sim, tudo que vem acontecendo nos últimos anos no nosso país e que vem se intensificado ainda mais durante o desgoverno atual e a pandemia. Eu comentei com algumas pessoas próximas que a pior e mais destrutiva variação do coronavírus era o COVID-17 (fazendo alusão ao antigo partido do atual presidente. É um desgoverno tão grande que nem partido ele tem. É tão bizarro que fica até difícil fazer a piada).

Foi difícil para mim pensar em falar sobre as questões referentes ao abuso sexual diante de tanto absurdo que tem acontecido atualmente na nossa sociedade, no nosso país, na nossa política.

Lembrei de um vídeo da Rita Von Hunty sobre o setembro amarelo (LINK), onde ela inicia o vídeo dizendo porque ela estava triste e todos os motivos tinham de pano de fundo nossa crise política, social, ambiental, financeira, etc. Ao ser recomendada cuidar da saúde mental dela, ela manda a pessoa ir à merda...rs. Ela fala posteriormente, entre outras coisas, o quanto as discussões acerca da saúde mental fazem parte de um ethos neoliberal que tende a colocar todo o peso do sofrimento que as pessoas sentem como uma responsabilidade do indivíduo sem problematizar o contexto social no qual este mesmo indivíduo está inserido.

A psicologia parece ainda ter que fazer um esforço grande para se libertar desse ranço individualista, que parece falar das pessoas de um ponto de vista particularizado, como se as pessoas fossem encapsuladas numa bolha fechada e que não estivessem construindo suas subjetividades a partir de uma inserção e vivência dentro de contexto histórico, grupal, social e político. Parece que ainda estamos muito querendo saber o que aconteceu na biografia de cada pessoa, como foi a relação com o passado, com o pai e a mãe, para poder avaliar os impactos que isso vai ter na saúde mental de cada um.

Não é que essas coisas deixaram de ser importantes. O tema do abuso sexual não deixou de ser muito importante. Mas, para mim, foi muito difícil falar sobre saúde mental no podcast por que naquele dia, especificamente, eu estava sentindo minha saúde mental no limite, totalmente afetada por questões que extrapolam minha individualidade, a minha biografia, o “meu” cuidado com a “minha” saúde mental.

Como falar em saúde mental atualmente sem arregaçar o que está acontecendo politicamente no nosso país? É importante que cada pessoa cuide de si para fazer o melhor para o outro. Tá bom. Concordo. Mas dentro de um contexto de tantas mortes, tantas violências, tanto descaso, de tantas desigualdades, fica difícil sustentar esse discurso sem angústia.

Sem contar que, por conta dessas mesmas desigualdades, parece bem hipócrita, e porque não dizer perverso, sustentar um discurso de cuidados com a saúde mental quando sabemos que o acesso aos espaços de cuidados de saúde mental não está disponível igualmente para todas as pessoas independente de qual grupo social ela pertença.  

E novamente vou frisar que minha angústia não era por mim individualmente. Neste momento posso reconhecer tantos lugares de privilégios que tive ao longo da minha biografia e que me permitiram estar numa situação muito menos vulnerável a tudo que está acontecendo no nosso país. Sou um homem hétero, cis, não sou negro, com um curso superior, trabalhando como autônomo sem sair de casa como psicoterapeuta. Falar de saúde mental dentro desse contexto é muito diferente do que tantas outras experiências que a maior parte das pessoas do nosso país vivem.

Então, se não tivermos cuidado os nossos discursos e movimentação nas redes sociais, mesmo que bem-intencionados, podem ser bem alienantes ao falaram de saúde mental de um lugar acrítico, atemporal, sem classe social, raça, gênero, etc.

Voltando ao tema do projeto: Não dá para discutir o abuso sexual, sem entender que essa violência acontece dentro de um contexto sócio-cultural machista, patriarcal, de impunidade para uma boa parte dos autores. Um movimento de culpabilização da vítima; um movimento retrógrado e conservador que não acha importante falar sobre educação sexual nas escolas; um discurso que diz que a família que tem que proteger as crianças, quando já tem escancarado que a maior parte das violências contra crianças e adolescentes acontecem dentro do seio familiar. Ao escutar uma pessoa abusada sexualmente eu escuto a dor dela enquanto indivíduo, mas escuto toda uma estrutura pesada e opressora que serve de propulsor dessas e de tantas outras violências.

Não vou dizer para vocês que não concordo com a campanha, tanto que gravamos o podcast mesmo assim. Mas redirecionamos o tema para falar de como é difícil ser um cuidador da saúde mental nesse momento quando estamos sendo atravessados por todas estas questões políticas e sociais. Acho que precisamos sim falar de saúde mental. Acho que o janeiro branco pode ajudar em muitos aspectos por ser um momento social onde se promove muitas reflexões. Só sinto que precisamos ter um fôlego maior para nos problematizar enquanto sociedade num sentido mais macro mesmo.

Precisamos fazer isso para entender que o adoecimento das pessoas acontece dentro de um tecido social do qual fazemos parte e que se não o problematizarmos estamos querendo fazer parte da solução por um lado, mas também somos bem parte do problema por outro.

Machismo em forma de "romance"

 



#voceescutaoquecanta?

Começo atirando no próprio pé! Estarei trazendo muitos sambas porque é o gênero musical que mais conheço e escuto e que tem muitas coisas boas e outras nem tantas assim. Essa já foi uma música que cantei muito e que foi feita por dois artistas que muito admiro que é o Luiz Carlos da Vila e o Cléber Augusto.

Vamos lá!

Romance dos astros (Luiz Carlos da Vila, Cléber Augusto e Jorge Carioca)

Sonhei que um dia
O astro rei à Terra descia
Secava as águas do mar e não mais anoitecia
Só voltava a chover, a noite e as estrelas
Se a lua fosse a sua companheira

Irredutivelmente ela dizia não
E Saturno em vão lhe ofereceu anéis
Ela nem ligava para a estrela D'alva
E nem ouvia a súplica dos menestréis

E o sol ficava mais e mais abrasador
Cego de amor, aí eu me queimei
No auge da trama eu caí da cama
O galo cantou, feliz eu acordei

.

Ao cantar essa música recentemente senti um certo incômodo. Comecei a tirar os astros da música, passando a identificar pessoas se relacionando e não pude deixar de acreditar que a trama cantada se passava entre um homem e uma mulher. Já recebi mulheres no meu consultório que falavam de situações que a música retratava, de uma certa forma.

O que me intriga na construção da música é que para mim a figura do sol exerce uma relação totalmente abusiva em relação à lua e isso é romantizado. Já escuto o que algumas pessoas podem falar: “ah, deixa de ser chato! Isso foi só a inspiração do compositor. Não tem nada a ver com a realidade!”

Entendo que se possa falar isso, mas ao mesmo tempo é estranho imaginar que não exista uma personificação desses personagens da trama baseado em alguma realidade nossa. Ainda mais quando sabemos que dentro da nossa estrutura social machista, muitos homens se comportam exatamente igual a esse sol. Exatamente sentindo-se como um “astro-rei”, quase o centro do universo, onde não sabem receber um não, principalmente das mulheres. Homens que se sentem detentores dos corpos, das escolhas, dos destinos das mulheres. Sejam elas suas companheiras ou não. Que não aceitam um término de uma relação e passam a violentar as mulheres de várias formas diferentes, podendo chegar inclusive ao assassinato.

Aí paro um pouco de escrever e jogo no google algumas palavras para fazer uma busca: “Homens não aceitam final do relacionamento” e a palavra “machismo”. O terceiro link que aparece é de 24.10.2018 e fala de uma pesquisa que estava em andamento, descrevendo que cerca de 50% dos casos de feminicídios acontecidos entre o ano de 2015 e 2018 era porque os homens não aceitavam o pedido de separação da vítima.

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2018/10/24/metade-fe0minicidios-homem-nao-aceita-separacao.htm

Será que realmente não existe algo grave sendo cantado?

Um dos pontos que eu acho interessante na narrativa do sonho é como se faz um apelo bem explícito de se culpabilizar a vítima porque “irredutivelmente dizia não”. Com direito a manipulações e chantagens emocionais que podem ser vistas no cotidiano das relações entre casais. Imaginem, por exemplo, como deve ser difícil culpar uma mulher que está numa situação abusiva com o seu companheiro e pedir para ela não se separar pensando no bem da família, caso eles tenham filhos? A mulher tem que pensar na estrela Dalva, aceitar ser comprada por saturno ou ouvir a súplica dos menestréis.

E o sol? Não é problematizado, afinal de contas ela estava cego de amor. Não tinha nada a fazer a não ser destruir um bocado de coisas para ter o seu desejo atendido...

Isso e tantas outras coisas podiam ser pensadas.

É importante frisar que, a partir do que eu escrevo, eu não acho que os compositores da música concordam com este tipo de prática, que eles acham certo esse tipo de postura na sociedade. Vejo a letra muito mais como um sinal, um indicativo, uma pequena amostra de uma cultura, de um tempo, onde determinados comportamentos eram e ainda são tão naturalizados que inclusive viram músicas que muitas pessoas cantam sem nem se aperceberem que podem estar reforçando práticas de opressões e violências.

Porém, por mais que eu não possa falar sobre qual é o lugar de quem compôs a letra, acho importante poder analisar essas músicas a partir de uma reflexão mais atual sobre essas relações de poder e ir desconstruindo estruturas que continuam sustentando e, talvez, até produzindo novas subjetividades que ainda estão ligadas a estes valores tóxicos para a sociedade como um todo.  

Em tempos de pandemia, não faço a mínima ideia de quando poderei participar novamente de uma roda de samba ou de algum show em que essa música possa ser tocada. Mas me fantasiei estando nessa situação e gritando ao final dela: Não é não!

Talvez ninguém entendesse...