sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Muro do Silêncio é feito de que?


O “Muro do Silêncio” é feito de que?

O objetivo geral do Projeto Revelando-Ser é desconstruir o “muro do silêncio” que existe em torno das pessoas adultas que foram abusadas sexualmente quando eram crianças ou adolescentes.

Como tenho citado sempre, muito teria para ser falado acerca disso, porém vou introduzir alguns elementos que podem ajudar a entender melhor o que compõe esse muro. Importante ressaltar que vou falar de três aspectos de maneira separada, mas é muito importante que se saiba que essas três esferas só estão separadas aqui para, didaticamente, facilitar a compreensão. Na “vida real”, esses aspectos estão contidos um dentro do outro, entrelaçados, um constituindo o outro, reforçando-se mutuamente, o que dificulta ainda mais a saída do isolamento que o muro do silêncio gera na vida de algumas pessoas que foram abusadas sexualmente.

Ao se aprofundar e visualizar a metáfora, me deparo com pessoas diante de um muro bem alto e extenso, cheio de tijolos dificultando a “passagem”, a “comunicação com outras pessoas” e, até mesmo, o “reconhecimento do que existe para além dele mesmo”, o que existem em sua volta. Passo a “escutar” muitos dos relatos que já chegaram até mim sobre como é difícil falar sobre o abusos sexuais sofridos e o isolamento que isso gera em cada pessoa. Eu divido, por ora, esse muro em três camadas, desde a base até o topo, que correspondem a diferentes esferas da vida de quem foi abusado sexualmente há anos, ainda sem saber o que considerar base, meio e topo do muro:

  1. Esfera individual;
  2. Esfera familiar;
  3. Esfera sócio-cultural.

Esfera Individual - Tenho falado um pouco sobre essa camada em textos anteriores: http://portaisdeuniao.blogspot.com/2018/07/tempo-delicadeza-e-profundidade.html ;
Vejo aqui toda a dificuldade que as próprias pessoas que foram abusadas sexualmente têm de entrar em contato com a sua experiência. Em praticamente todos os casos que atendi as sensações que as pessoas experimentam ao lembrarem dos abusos sexuais não são nem um pouco agradáveis. Muitas pessoas passaram por momentos em que parecia que  elas não iriam suportar lidar com aquelas lembranças e as emoções que aparecem diante delas. Algumas pessoas inclusive não lembravam dos eventos abusivos da sua vida. Ou seja, a pessoa pode criar um muro do silêncio em volta da dor, em volta da ferida que ainda está aberta e latente, não conseguindo revelar nem para si mesmo o quanto aquela situação afetou e ainda afeta a sua vida. Muitos sentimentos podem dar suporte para este silêncio: vergonha, culpa, medo, raiva, mágoa, abandono, rejeição, exclusão, traição, sentirem-se sujas, falta de confiança em si e nos outros, etc. Quando o abuso foi cometido por algum familiar muito próximo, esses sentimentos se misturam com tantos outros, o que pode gerar uma confusão, contradição “dentro” da pessoa.

Esfera Familiar - Agora pensemos que a pessoa abusada conseguiu reconhecer / olhar para esta experiência - que parecia estar somente no passado, mas que se apresenta de maneira bem contundente no presente -  mesmo que ainda com muito sofrimento. Logo em seguida, outra camada de silêncio apresenta-se com o poder de abafar aquilo que está emergindo de maneira ainda muito incipiente: os vínculos familiares.

Como minha família reagiria se eu contasse? Quais as consequências disso? Vou prejudicar a minha família? E se eles não acreditarem em mim? Se eles acharem que a culpa é minha?

São tantas questões, tantas possibilidades das coisas “piorarem” para a pessoa que foi abusada que muitas vezes ela não sabe o que fazer com esse segredo. Muitas vezes a saída é continuar em silêncio, sem contar para ninguém. Porém, essa situação pode piorar na medida em que ela entra mais em contato profundo com o conteúdo do abuso, pois, agora, não dá para fazer de conta que nada aconteceu e continua acontecendo dentro dela. A tensão pode aumentar ainda mais e se tornar mais explícita do que quando a pessoa tentava viver a vida sem olhar para isso. Quando o abuso é praticado por um familiar, a própria rede de apoio familiar pode não querer olhar para a violência, porque ela fica fragilizada, dividida, sem saber que lado tomar, o que fazer. Muitas vezes a própria família prefere que as pessoas abusadas continuem em silêncio. “Já silenciou isso por tanto tempo! Por que mexer nisso agora?!”

Lembro agora de uma pessoa atendida por mim  e que me relatou que sempre lembrou da situação do abuso, mas nunca tinha parado para realmente sentir tudo que ele representou na vida dela. O abuso foi cometido por um familiar bem próximo e ela teve que ficar convivendo com o mesmo porque ele morava perto da sua casa. Ao trabalhar este conteúdo na terapia, a pessoa se deu conta de que foi necessário ela não olhar para o abuso sexual ao longo daqueles anos todos para ela poder continuar convivendo com a sua família. Quando a terapia começou a mexer nesse assunto de maneira mais profunda, a pessoa sentiu que quanto mais ela ouvia os seus próprios sentimentos em relação aquele drama, que também era familiar, menos ela conseguia “funcionar bem” dentro da família. Era como se, para ela, conviver com a família implicava em não olhar para o abuso. Mas ele teve que ser olhado e isso implicou em se afastar da família.

A imagem que me vem é de uma festa de família em uma casa bem grande e que quando a pessoa que foi abusada vem chegando, ela tem que deixar do lado de fora da casa uma experiência que para ela é significativa. Uma parte do ser dela tem que ser alienado de si mesma para poder estar com as pessoas que ela ama (muitas vezes incluindo o autor/a do abuso). Mas o preço dessa alienação pode ser caro para a pessoa ao longo da vida e, ao não querer mais sustentar essa cisão de si mesma, a pessoa pode não se sentir conseguindo conviver com aquelas pessoas. Ela pode precisar se isolar e sentir uma solidão que não é tão novidade assim, pois, na verdade, ela sempre se sentiu solitária, de maneira inconsciente, após o abuso que ela nunca compartilhou com ninguém. Essa solidão pode se tornar ainda mais concreta e isso não é fácil.  

Esfera sócio-cultural - O abuso sexual, apesar de parecer ser um evento individual e/ou familiar, acontece dentro de um “tempo e espaço” social e cultural. Não tem como se discutir o abuso sexual, a sua prevalência e ainda mais o muro do silêncio em volta dele, sem situá-lo dentro dos valores, dos discursos, das relações de poder, opressões, do lugar que foi e ainda é dado para a família, crianças, adultos, homens e mulheres, sexualidade, violação de direitos, etc. ao longo dos anos passados. Ainda mais quando estamos situando o foco do projeto em pessoas adultas que foram abusadas sexualmente há 15, 20, 30 ou mais anos.

Atualmente muitas pessoas que passam por alguma situação de violência encontram imensas dificuldades para denunciar essa violência e serem acolhidas nos seus sofrimentos. O nosso contexto socio-cultural ainda tende a negar a importância de eventos violentos que acontecem com determinados grupos da sociedade, fazendo de conta de que eles não existem, e se existirem não são tão sofridos assim. A famosa era do “mimimi” que tanto ocupa falas e discursos nas redes sociais.

Se essa dinâmica acontece atualmente - dentro de um contexto onde a violência é mortal, gritante, alarmante, expressa em números, em imagens de tantos vídeos, e ainda assim é minimizada por essas relações desiguais entre atores sociais diferentes - imaginem o desafio que é falar de uma violência que aconteceu há tanto tempo, muitas vezes sem provas, com lembranças confusas, com pessoas que podem até já terem morrido. Se uma mulher que foi agredida, violentada e morta por algum homem de maneira brutal (como tantas que, infelizmente, chegam ao nosso conhecimento) ainda é julgada, culpabilizada e negada em sua humanidade, qual a mensagem que, implícita ou explicitamente estamos passando para outras pessoas que queiram falar das suas violências do passado. Talvez seja difícil para as pessoas compreenderem que para uma pessoa que demorou anos para falar de um abuso sexual do passado, ser julgada da forma que é comum hoje em dia, pode ser ainda mais violento e desestruturador. Como se ela nunca tivesse o direito de querer sair daquela prisão, como se não tivesse “espaço social” para aquela dor e que ela tem que carregar esse fardo sozinha consigo mesma como fez tão bem ao longo dos anos. A que custo só a própria pessoa sabe!

Ainda bem que estão aparecendo cada vez mais situações nos meios de comunicação que retratam essa situação das pessoas adultas que foram abusadas. Porém, sinto que, enquanto sociedade, ainda não estamos podendo reconhecer o quanto isso aconteceu e ainda acontece. Parece difícil atualizar o conceito de família e reconhecer que em muitos casos ela não é, somente, uma célula social protetora, nutritiva e que promove o crescimento das suas crianças. Ela também pode ser violenta e é importante que possamos lidar com isso para cuidar das pessoas que foram se perdendo ao longo do caminho.

Novamente sinto que muito ainda poderia ser falado...rsrs
Mas fica o convite para que as pessoas que leiam possam perguntar, questionar, debater.
Estamos promovendo encontros regulares para debater sobre esses assuntos.
Mais informações no nosso site www.revelandoser.org.
Que possamos ser agentes de mudança na desconstrução desse muro do silêncio no intuito de criar uma sociedade mais acolhedora e inclusiva para todxs.


terça-feira, 21 de agosto de 2018

Revelando-Ser: Juntando peças de um Quebra-Cabeça


Tenho feito algumas publicações sobre o Projeto Revelando-Ser para compartilhar com as pessoas sobre um assunto tão pouco falado na nossa sociedade: Pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e/ou adolescência.

Apesar de saber que as pessoas tem menos disponibilidade de ler textos longos nos dias atuais, tenho optado por escrever desta forma porque sinto que é o que contempla melhor a complexidade das coisas que quero abordar. O curioso é que posso afirmar que ainda tenho escrito muito menos do que eu poderia falar de cada texto. Sempre termino com a sensação de poder trazer ainda mais coisas.

Outra característica dos textos é um formato mais livre e informal na maneira de falar sobre os abusos, sem muita teorização, com quase nenhuma citação das referências, autores, etc. Tenho pautado os meus textos a partir da minha experiência com as pessoas abusadas para trazer elementos que sinto que são significativos para que as pessoas compreendam um pouco mais sobre essa temática. Como quero falar com pessoas que não estão, necessariamente, na academia, tenho gostado de uma escrita mais coloquial mesmo.

Porém, ao mesmo tempo, sinto a vontade de contribuir com essa discussão de maneira mais profunda também. Talvez essa necessidade implique em poder falar mais demoradamente de cada coisa que observo, como também pode se desdobrar em um diálogo mais sistemático com os autores, com os textos acadêmicos. 

Desde que tenho pensado sobre isso, venho gestando a ideia de escrever um livro sobre a temática. Um livro onde eu possa juntar estas duas contribuições citadas no parágrafo anterior. Penso nesse projeto como algo muito para o futuro ainda.

Por ora, continuarei com meus textos por aqui, como uma forma de ir juntando as peças desse quebra-cabeça tão complexo. Os textos soltos, escritos de maneiras mais pontuais, sem uma sequência muito bem delineada, servirão como adubo, matéria-prima para o florescimento, uma construção mais organizada que também possa dialogar com outros setores da sociedade e, quem sabe, contribuir ainda mais com a desconstrução do "muro do silêncio" que envolve as situações de abusos sexuais na nossa sociedade.

Quem quiser contribuir, participar desse processo, pode interagir, perguntar, compartilhar coisas por aqui também. Tudo serve de material nessa construção. 

Vamos juntxs?!

domingo, 5 de agosto de 2018

No Limite do Silêncio


No Limite do Silêncio
Este título é de um filme muito profundo sobre o abuso sexual e seus desdobramentos. Estaremos realizando um cine-debate sobre ele no início de setembro. Ao assistir novamente ao filme, fiquei com este mote no pensamento:

Qual o Limite do Silêncio de cada pessoa?

Como falei em outro momento, já venho acompanhando terapeuticamente várias pessoas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência e que me procuraram para iniciar a psicoterapia. É importante frisar que, tal como tem descrito em alguns estudos acadêmicos, a demanda do abuso sexual não era a “demanda principal” que fazia com que estas pessoas me procurassem. O que aconteceu, em praticamente todos os casos, foi a pessoa vir com várias demandas diferentes e o abuso sexual aparecer posteriormente como algo importante para o processo, em alguns casos se tornando até no ponto principal da terapia.
Vejo essa situação por dois prismas diferentes no momento, um parecendo mais frequente do que o outro:

1 - A pessoa que foi abusada sexualmente reconhece que o abuso é algo importante a ser trabalhado, porém, não é fácil para ela tocar nesse conteúdo, principalmente com uma pessoa que ela não conhece, nunca viu e que ainda não estabeleceu uma relação de confiança onde ela sinta que pode se abrir para falar de algo que gera tantos sentimentos contraditórios dentro dela;
2 - A pessoa que foi abusada sexualmente não tem ideia do quanto aquela situação tem influenciado sua vida. Muitas vezes, a pessoa não lembra muito bem e, como ela sobreviveu e não fala mais disso, parece não ser importante tocar nesse assunto (sinto como esta situação mais frequente).

O que aconteceu, em cada processo foi que, a própria terapia - ao cuidar dos assuntos que estavam mais emergentes no aqui e agora - trouxe à tona a situação do abuso sexual naturalmente, sem termos que ir atrás dele intencionalmente, fazendo com que tivéssemos que nos debruçar mais sobre esse passado.

Qual o Limite do Silêncio de cada pessoa?
Já tive um cliente que demorou dois anos de processo para falar sobre o abuso sexual. Quando falo assim, parece até meio estranho, pois tivemos que re-significar tudo que tinha sido falado até então e, com o decorrer do processo, ele chegou à conclusão de que estávamos falando do abuso o tempo todo, porém, sem termos consciência de que todos os conteúdos falados já faziam parte dos desdobramentos do abuso. Passamos ainda alguns anos trabalhando em cima dessa "descoberta".

Qual o Limite do Silêncio de cada pessoa?
Atendi uma cliente que, depois de algum tempo de terapia, também trouxe a situação do abuso na sua vida. Porém, ela tinha reações físicas muito fortes ao apenas cogitar falar sobre este assunto na terapia. Foi uma experiência muito significativa para mim. Ela vinha duas vezes por semana para a psicoterapia, e demonstrava que queria falar sobre o assunto, porém, ao começar, a sua vista ficava embaçada ou escurecia, sentia muitos calafrios, falta de ar, etc. Eu tive que reconhecer que tocar naquele assunto estava para além da minha disponibilidade enquanto terapeuta, bem como também para além da sua vontade consciente enquanto cliente. Com o passar do tempo, foi possível ver estas reações se acalmando mais e pudemos vivenciar momentos de intensa dor, em que percebemos o que aquelas reações estavam evitando.

Qual o Limite do Silêncio de cada pessoa?
Estamos realizando os atendimentos psicoterapêuticos às pessoas que têm procurado o Projeto Revelando-Ser. Algumas destas pessoas vieram para alguma roda de conversa, ou palestras do projeto. Ao atender esta pessoas, foi possível perceber uma diferença no que se refere a este Limite do Silêncio. As pessoas que eu atendi no meu consultório particular, como exemplifiquei rapidamente acima, me procuraram para falar de outras demandas e, com o tempo, começaram a falar sobre o abuso sexual. Sinto que durante este tempo foi possível construir uma relação de confiança, acolhimento e aceitação que foi de fundamental importância para se adentrar neste terreno tão delicado posteriormente. Algumas das pessoas que procuraram o projeto e que demonstraram interesse na psicoterapia chegaram de uma forma diferente. Elas estavam vindo para um projeto em que o abuso sexual se anunciava desde o momento em que ela entrava em contato pelo telefone. Ao chegar à minha sala, a pessoa já estava dizendo que passou por aquilo, sem ter nenhum vínculo maior com aquele que iria escutar coisas muito profundas e dolorosas da sua vida. É como se aquela ferida já estivesse totalmente aberta e exposta e percebi que alguns clientes se sentiam meio que na obrigação de falar sobre o assunto, não somente porque ele estava muito emergente na sua vida, mas também porque o projeto é sobre este assunto. Sinto que estas situações podem ter gerado uma dificuldade adicional para a pessoa conseguir sustentar a sua decisão de ir se revelando aos poucos. É como se o primeiro atendimento não respeitasse este Limite do Silêncio, colocando a pessoa em um lugar que exigia mais do que ela estivesse podendo dar naquele momento. Perceber esta dinâmica nos primeiros atendimentos foi importante para que eu pudesse verbalizar para os clientes seguintes, no primeiro atendimento, que não era obrigatório falar do abuso sexual, que eu estava disponível para estar com eles no que fosse possível falar naquele momento. Em uma ocasião senti o quanto falar isso para uma cliente no primeiro atendimento a deixou mais aliviada e mais segura de que não precisaria se expor obrigatoriamente ou passar por cima de si, dos seus limites, para estar na relação terapêutica comigo. O que aconteceu em seguida é que o abuso sexual ainda apareceu nas primeiras sessões, mas com um ritmo que estava sendo mais cadenciado pelo cliente do que por mim ou pela “Instituição”. Sinto que, mesmo que deixemos os clientes à vontade para não falar logo sobre o abuso, eles vão querer trazer isso, afinal de contas, a maioria deles não suporta mais ficar com esse segredo só para si, já fazem isso há muito tempo. Para mim é muito mais uma demonstração de respeito, uma demonstração de delicadeza e cuidado com o tempo, limites e ritmo no processo de revelação de cada um.

Qual o Limite do Silêncio de cada pessoa?
Sinto que as pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência criam um certo perímetro de acesso a algumas experiências que se passam consigo como um mecanismo de sobrevivência psicológica. Para mim, enquanto terapeuta, cabe honrar esse perímetro, reconhecendo-o como importante e aceitando que ele precisou estar aí. Porém, este perímetro, ao mesmo tempo em que protege o cliente de uma possível desestruturação, também limita, também o mantém prisioneiro dos próprios sentimentos, podendo se tornar uma experiência tão claustrofóbica que também coloca em risco a própria sobrevivência deste cliente. Então, junto com a aceitação desse perímetro, reconheço toda a vida e potencialidade que podem estar abafadas por este modo de funcionamento rígido. Garantindo a presença das atitudes facilitadoras (Carl Rogers), posso convidar o cliente a enfrentar esses sentimentos e medos, a descer nesses porões escuros e assustadores, acreditando e reconhecendo que ele pode ser muito mais do que tem sido sem ter um apoio para atravessar esse deserto de tantos anos.
Interessante como esse texto faz um link importante com o anterior:

Meu desejo sincero com o Projeto Revelando-Ser é que possamos facilitar que estes silêncios sejam cuidadosamente revelados para que tanto as pessoas que foram abusadas, como também as que não foram, possam reconhecer o quanto é importante abrir espaço para cuidar destas feridas antigas, possibilitando que seja possível olharmos para um futuro com mais cuidado, leveza, esperança e inteireza.

Vamos falar mais sobre isso no Cine-Debate?




sexta-feira, 13 de julho de 2018

Tempo, Delicadeza e Profundidade


A dimensão do TEMPO tem aparecido de forma muito significativa ao se trabalhar com a temática das pessoas adultas que foram abusadas sexualmente quando eram crianças ou adolescentes:

1 - A pessoa tinha quantos anos quando aconteceu o abuso?
2 - O abuso aconteceu uma vez apenas ou se estendeu por mais TEMPO? Em alguns casos a pessoa foi abusada por anos.
3 - Depois de tanto TEMPO, é possível resgatar o que, de fato, aconteceu?
4 - Por quanto TEMPO a pessoa ficou em silêncio com aquele segredo guardado só para si?
5 - Quanto TEMPO leva para uma pessoa conseguir falar sobre isso na terapia?
6 - Quanto TEMPO pode durar o processo de compreender o impacto do abuso sexual na minha vida?
7 - Depois que se reconhece o abuso, quanto TEMPO demora para se ficar em paz com isso?

Ainda se teriam mais perguntas.

Como escrevi no texto anterior - ao convidar as pessoas para conhecerem o projeto - compreender o abuso sexual não é algo simples. Compreender os efeitos, muitas vezes contraditórios, em cada pessoa, não é simples. Muitas vezes é preciso de TEMPO para se adentrar neste terreno incerto e muito obscuro por vezes.

Porém, o assunto em si mexe muito com os afetos de todas as pessoas que escutam falar sobre ele. Difícil não se ter uma opinião ao ouvir relatos de abusos sexuais, muitos deles praticados dentro da própria família da vítima. Ao realizar rodas de conversa, palestras, encontros sobre o tema no projeto Revelando-Ser, não é raro encontrar pessoas que tentam dizer de maneira mais rápida o que aconteceu na vida de cada um, como as pessoas abusadas deveriam se sentir, ou até o que elas deveriam fazer com as situações que passaram.

Toda vez que escuto essas intervenções, lembro da dimensão do TEMPO novamente. Muitas vezes, nem a própria pessoa que vivenciou o abuso consegue entender o que aconteceu com ela. Muitas vezes a própria pessoa tem uma perspectiva racional sobre quem ela é e o que deveria fazer. No entanto, ainda assim, ela não consegue realizar essas mudanças de perspectivas de maneira tão rápida. "Sinto que existe um profundo descompasso entre o que a minha cabeça pode produzir e o quanto o meu coração consegue acompanhar". Muitas vezes essa pessoa passou muito TEMPO sentindo várias coisas, de maneira muito profunda e, ao ouvir outra pessoa - que não sentiu o que ela sentiu e não viveu o que ela viveu - falar de maneira mais simples sobre quem ela é ou deveria ser, a pessoa que foi abusada pode se sentir ainda mais isolada e distante de si.

Ela, mais do que ninguém, queria “acabar” com aquele sofrimento.
Ela, mais do que ninguém, queria lidar com o seu passado de maneira simples e rápida.
Ela, mais do que ninguém, gostaria de saber o que fazer e fazer logo, não perdendo nem mais um dia da sua vida pensando e remoendo essas experiências tão indigestas.
Mas, ainda assim, ela não tem conseguido e isso precisa ser compreendido, ou pelo menos aceito, pelas demais pessoas.

Quando queremos ajudar as pessoas que passaram por esse sofrimento, ou algum outro sofrimento muito profundo, talvez fosse importante lembrar que alguns assuntos quase que exigem uma delicadeza para serem tocados de maneira construtiva. Dependendo da reação de quem ouve um relato sobre um abuso sexual, a pessoa, que em muitos casos precisou de muita coragem para falar sobre isso, pode se sentir mais livre ou ainda mais pesada e desesperançosa.

Esse texto me lembrou de uma experiência que vivi no Recanto do Ser, espaço que eu atendo. Temos várias plantas no nosso jardim, quintal e interior do Recanto. Há quase dois meses percebi que tinha uma planta num vaso que já tinha sido muito bonita, mas que estava desfolhando, ficando seca cada vez mais. Ela ficava numa área externa e tinha levado muita chuva durante dias. Apesar de não ter muita experiência com plantas, eu quis ajudar aquela. Ao me aproximar eu vi que a terra estava totalmente encharcada e que o buraquinho do vaso em que a água deveria sair, estava fechado por raízes da própria planta. Provavelmente a planta estava precisando se expandir para além daquele vaso e acabou fechando o lugar por onde a água deveria sair. Logo vi que teria que tirar ela dali, mas também me dei conta que não seria tão fácil ajudar aquela planta. Eu estava com uma certa pressa devido a muitas coisas que tinha para fazer. Porém, entendi que se eu tentasse tirar ela do vaso rapidamente, provavelmente iria parti-la ou não conseguiria tirar ela com as raízes que seriam fundamentais para ela conseguir voltar a se desenvolver em um terreno mais propício.

Comecei a lembrar das pessoas adultas que foram abusadas na infância ou adolescência. Muitas vezes o terreno onde ela cresceu (sua história) não foi o mais facilitador para que ela se desenvolvesse em todo o seu potencial. Para eu poder ajuda-la de verdade, talvez isso me exija um maior tempo, uma maior delicadeza de levar em conta as suas raízes, talvez eu tenha que ir mais profundo, para poder entender e facilitar a mudança de um lugar adoecido, encharcado, sufocante para outro lugar mais fértil, com mais liberdade e espaço para ela voltar a crescer. Se eu chegar com a minha pressa em dizer quem a pessoa é ou o que tem que fazer, pode ser que eu só esteja pegando no caule dela e puxando ela para cima, talvez um movimento tão brusco para ela, que faça com que o tronco quebre ou se desvincule das suas raízes e seja ainda mais difícil para ela se reorganizar no futuro.

Infelizmente a plantinha não sobreviveu com o TEMPO, mesmo que, na medida do meu possível, tenha sido retirada com muito cuidado e estando num terreno muito melhor e sendo melhor cuidada posteriormente. Isso me remete ao TEMPO novamente, pois, talvez, eu e outras pessoas que frequentam o Recanto levamos muito TEMPO para tentar ajuda-la no lugar em que ela estava.

Poderia falar mais, mas também lembro que o TEMPO das redes sociais não permite textos tão longos.

Volto a lembrar das pessoas adultas. Penso quantas estão sufocadas nos seus silêncios, nas suas águas (emoções), vivendo um ambiente, externo ou interno, que impossibilita que elas cresçam e que ou não são vistas há TEMPO, ou são tratadas sem a delicadeza e profundidade necessários para uma volta à vida. Como a vida não é conto de fadas, algumas pessoas podem ter se isolado por tanto TEMPO que podem não permitir receber tanto uma ajuda. Porém, se cada pessoa se tornar mais aberta e receptiva para olhar, seja a sua própria história, ou a história de um familiar, cônjuges, filhos, etc. com essa delicadeza, sinto que estaremos construindo um espaço social que ajude a não se ter esse desfecho mais trágico.

O Revelando-Ser tenta trazer essas reflexões para que possamos nos disponibilizar a cuidarmos mais de si e dos outros.

Vamos dedicar um pouco mais de TEMPO para isso?


domingo, 10 de junho de 2018

Psicoterapia como uma busca de autoconhecimento





Primeiramente, um pouco de mim:
Durante anos da minha vida eu fui revoltado e, ao mesmo tempo, lamentava muito alguns eventos traumáticos que aconteceram comigo na infância. Durante anos me sentia culpado ou achava que tinha alguma coisa de errado comigo por passar por tantas coisas e achar que os meus amigos tinham uma vida “normal”, sem muitos sofrimentos. Eu me perguntava sobre qual o sentido disso tudo. Tudo era muito confuso para uma criança com mais ou menos 09 anos de idade. Sem entender bem o que se passava comigo, já demonstrava alguns comportamentos de risco,  muita agressividade, muita introspecção e um sentimento de vazio grande.


Por indicação da minha mãe, tudo isso ganhou espaço para ser falado, experimentado, chorado, desabafado num processo terapêutico quando eu estava com mais ou menos 13 anos. Ter encontrado esse espaço naquele momento da minha vida foi fundamental para que alguns desses comportamentos, que já estavam ganhando um espaço maior na minha vida, pudessem ser digeridos, elaborados, re-significados, me permitindo dar um destino diferente para tudo isso.


Aos 15 anos, por perceber tantas transformações que estavam acontecendo dentro e fora de mim, decidi ser terapeuta, decidi que queria possibilitar às pessoas  um espaço tão importante como aquele estava sendo para mim. Engraçado que eu pensei inicialmente em fazer isso por prazer, por achar que aquilo era algo muito profundo e necessário. Só depois que pensei: “Se eu for psicólogo, ainda vou ganhar dinheiro para fazer isso! rsrs”


De lá para cá, tanto tenho estado constantemente em uma busca pessoal de autoconhecimento, bem como concretizei a minha decisão de adolescente e me tornei psicoterapeuta, me dedicando a escutar e trabalhar terapêuticamente com as pessoas há mais de 10 anos.


Ao saberem do meu entusiasmo pela psicoterapia, já me perguntaram se eu achava que todo mundo deveria fazer terapia. Na época eu estava bem convicto que sim, que o mundo seria bem melhor dessa forma. De uns tempos para cá essa percepção mudou um pouco, onde comecei a achar que a psicoterapia não iria “salvar o mundo”, mas que sim, o autoconhecimento é muito necessário para dar um sentido maior à nossa vida. Porém, ele não acontece somente dentro de um consultório de psicoterapia. Dependendo da busca e consciência de cada um, muitas experiências da vida podem ter um efeito terapêutico e serem muito profundas e contribuírem para uma existência mais plena para as pessoas. Apesar desta mudança de perspectiva, ainda continuo achando que a psicoterapia é um espaço profundo, potente, acolhedor, transformador e que pode estar disponível para as pessoas iniciarem essa busca.


Mas por que que você acha que o autoconhecimento é tão necessário?
Tenho acompanhado pessoas ao longo desse tempo e tenho percebido que estamos vivendo tempos muito difíceis, seja no âmbito mais pessoal, social, cultural, político, econômico, etc. Tempos de uma complexidade que deixa as pessoas atordoadas e confusas com tantas transformações, com um tempo que insiste em correr cada vez mais rápido, com tantas possibilidades diferentes de se estar no mundo, com um maior distanciamento entre as pessoas, com a convivência com tantas contradições, etc. As pessoas estão cada vez mais conectadas com o externo e sendo bombardeadas diariamente por tantos estímulos, tantas situações, emoções, conflitos e não encontram um lugar nessa Roda Viva para pararem um pouco e pensar como cada um está vivenciando tudo isso. Vejo pessoas que têm rotinas muito bem definidas e vivem a vida num certo “piloto automático”, onde é mais importante garantir certas coisas, do que pensar se realmente estão felizes e realizadas com a vida que têm vivido. As pessoas parecem não ter mais tempo para olhar para as suas emoções, principalmente as emoções que são consideradas negativas, e tentam viver como se conviver como se estas emoções não influenciasse as suas vidas. O aumento de pessoas que tomam remédios psiquiátricos me parece mostrar o quanto conviver com essas tensões, sem um olhar mais dedicado a se entender no mundo, pode ser adoecedor. Entretanto, ainda com esse aumento, muitas pessoas tomam apenas o remédio, não se dedicando a fazer uma psicoterapia que poderia ajudar na compreensão e na mudança de certos padrões mentais ou de comportamentos que estão pautadas em emoções não compreendidas que também interferem nesse funcionamento mais fisiológico (Faço essa distinção entre biológico, emocional, mental apenas sendo didático, pois no fundo acredito que o ser humano funciona como um todo organizado onde cada parte destas não estão separadas, se inter-relacionando). O remédio cumpre essa função de uma “cura” rápida, parecendo isentar as pessoas de se darem ao trabalho de olhar mais profundamente para dentro e querem só continuar fazendo o que já fazem. Porém se algumas emoções não são olhadas é provável que alguns comportamentos e consequências não mudem dentro da pessoa, apenas sendo contornadas, acalmadas pelo efeito da química dos remédios. Desta forma, é possível que muitas situações difíceis se repitam na vida da pessoa, não deixando ela ser feliz como ela almeja. Com o passar do tempo, a pessoa pode até entrar numa certa descrença na mudança porque não está entendendo que ela está tentando mudar a partir de um “lugar” que não garante a mudança real. Mas uma boa parte das pessoas escolherá - seja por dificuldades de se enfrentar, inconsciência ou por desconhecimento - sempre estar com os remédios por perto para conter esses desdobramentos de coisas que ela não aceita mexer.


Infelizmente digo que a profissão de psicoterapeuta se assemelha a uma parte da profissão de bombeiros. As pessoas não procuram a psicoterapia quando sentem que tem alguma coisa errada com a vida delas, ou quando sentem que não se conhecem, ou ainda quando estão vivendo uma vida meio sem sentido, ou quando sentem que estão dependendo emocionalmente de uma pessoa para viver. Estas situações não são importantes o suficiente para mobilizar uma boa parte das pessoas para buscar um cuidado maior consigo. Inclusive existe uma grande discrepância quando se fala de “cuidado consigo” entre o quanto se investe no cuidado físico, biológico, corpo, estética - coisas externas que dá para as outras pessoas perceberem - e o quanto se investe em cuidar mais da saúde mental. (novamente parecem ser coisas separadas, mas não são). No que se refere ao cuidado com a saúde mental, muitas pessoas só procuram a ajuda de um profissional quando a casa já está pegando fogo, quando já se está num desespero, quando já não se sabe mais como fazer para evitar entrar em contato com aquele sofrimento, quando já não se está mais querendo viver, quando as questões emocionais já estão se manifestando no físico, etc. Quando algo parece estar muito errado é que se pensa em como cuidar também desta esfera tão importante da vida. Mas uma situação de uma gravidade maior como estas não acontece de um dia para o outro. Muitas vezes os sofrimentos se arrastam por anos na vida das pessoas, até que se torne insuportável e as tragam para buscar uma forma de se cuidar e autoconhecer dando um outro lugar na vida para os sofrimentos.


Como eu falei na primeira parte do texto: Não faço ideia de onde eu estaria se não tivesse começado a ver certas coisa dentro de mim desde muito cedo. Atualmente, sinto que uma boa parte dos meus traumas foram re-significados e hoje olho para eles como tendo sido uma porta de entrada para me direcionar de maneira tão determinada para o lugar de ser terapeuta e ajudar tantas pessoas. Corro o risco de ser meio fatalista ao dizer que é provável que eu nem estivesse aqui escrevendo estas linhas. Facilmente eu poderia ter me perdido nas aventuras de adolescente crescendo em um bairro que me dava acesso a várias situações que colocaram minha vida em risco, como pude ver com amigos bem próximos.


Então apesar de não achar que a psicoterapia vai salvar o mundo, tenho me perguntado: Quem você tem sido sem refletir muito sobre você mesmo? Que comportamentos você tem sustentado na sua vida que não te deixam feliz ou te realiza e que você não parou ainda para tentar entender? Quantos sentimentos guardados não estão permitindo que você possa viver uma história diferente da que você já conhece, se mantendo refém de um passado que ainda não passou dentro de você porque não se deu ao trabalho de colocar para fora o que não te serve mais? Quem você tem o potencial de ser, mas que não se atualiza por nem acreditar que é possível mudar?


Ao escrever isso não estou querendo passar uma sensação de que tudo é lindo ao se fazer terapia ou buscar outra fonte de autoconhecimento. Se fosse assim, a psicoterapia seria muito mais procurada do que é. Para olhar para si mesmo, muitas vezes é necessário uma disponibilidade de encarar aquelas partes nossas que passamos a vida tentando esconder de nós mesmos. Não é simples. Poderia falar muito sobre isso. Fica para outro momento. Porém, se você entende que sem se compreender, você tende a continuar sendo quem você tem sido, qual o mal que existe em tentar encontrar outra forma de viver? Se “não der certo”, é provável que você continue vivendo aquilo que já estava vivendo. Porém, se “der certo”, muitas coisas podem mudar e você só saberá quando estiver vivenciando as mudanças.


Certa vez um grande amigo psicólogo falou que gostaria de viver num mundo onde não fosse necessário existir psicoterapeutas enquanto profissionais Um mundo onde as pessoas pudessem ter acesso a este tipo de relacionamento, de escuta, de acolhimento em praça pública, no meio da rua, no colégio, dentro de casa, na sociedade como um todo. Achei muito importante essa reflexão, inclusive para que o que se vivencia dentro do consultório não se encerre ali e que possamos buscar formas de nos relacionar mais saudavelmente no “mundo lá fora” também. Ainda não estamos nesse momento sócio-cultural, mas acho que podemos contribuir muito para uma mudança coletiva ao cuidarmos também da nossa biografia.


E aí, que tal se conhecer um pouco mais?

sábado, 9 de junho de 2018

Revelando-Ser - Convite no Facebook

Olá pessoas.
Postei esse texto no dia 05 de junho de 2018, chamando as pessoas para conhecer mais de perto esse projeto tão importante.
Vou deixar que a própria postagem "fale por si"...rsrs

.
Boa tarde, pessoas. Queria compartilhar com vocês uma parte do que venho fazendo profissionalmente há algum tempo e que tem ganho ainda mais espaço na minha vida recentemente.

Algumas pessoas já devem ter visto que compartilho eventos, postagens ou vídeos de uma página que eu eu sigo aqui no FB, Revelando-Ser. Este é um projeto que eu criei, juntamente com alguns amigos e profissionais, e que já vem sendo gestado há cerca de dois anos. O objetivo desse projeto é colaborar na descontrução do “muro do silêncio” que existe acerca de pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência e que carregam consigo alguma ferida desse passado.

Desde 2010 que eu trabalho diretamente com a temática do abuso sexual, seja em projetos sociais, ou atendendo no meu consultório particular. Nesses dois espaços profissionais comecei a entrar em contato com essa demanda das pessoas adultas e percebi que o abuso sexual era algo muito mais frequente do que eu imaginava e do que se falava na sociedade. Desde então, tive vontade de criar um projeto que pudesse atender a esse público especificamente. Não porque é o público mais importante a ser atendido ou trabalhado, mas, sim, porque percebi que existia uma lacuna, tanto nos discursos, visibilidade, pesquisas acadêmicas, etc. - quanto nas políticas públicas de atendimento a esse público.

Desde então venho estudando, discutindo, refletindo e atendendo a estas pessoas que, parece que por sincronia, começaram a me procurar. Eu nunca tinha parado para dizer que trabalho especificamente com este tema, para gerar uma demanda de pessoas que me procurassem direcionados por uma divulgação. As pessoas foram chegando em momentos diferentes e isso me fez conhecer ainda mais de perto esta realidade.

Uma realidade confusa, permeada por muitas contradições que não se excluem, que se misturam, compondo uma paisagem de luz e sombra de difícil compreensão caso o ouvinte tenha pressa para entender o que “de fato” aconteceu. Algumas das contradições que tenho acessado a partir da situação das pessoas adultas e o abuso sexual:
- Escuto tanto relatos de lembranças intrusivas que insistem em não ficar no passado, voltando em muitos momentos em que o que a pessoa mais deseja é estar em paz e seguir adiante; bem como escuto relatos de “apagões” durante anos da infância onde a pessoa não tem ideia do que aconteceu com ela, não conseguindo entender quais as marcas que ela carrega. Não é fácil saber diferenciar o que não se lembra por uma dificuldade resgatar na memória mesmo, do que não se é lembrado por ser muito difícil para a pessoa suportar.
- Ouço pessoas que ficaram com uma profunda dificuldade de se permitir ser tocadas sexualmente por outras pessoas; como também ouço pessoas que têm dificuldades de encontrar um limite sexual entre elas e as outras, parecendo ter uma “abertura” que acaba, em alguns casos e paradoxalmente, também produzindo uma dificuldade de ser tocada mais profundamente por outras pessoas;
- Vejo pessoas que se reconhecem no lugar de uma vítima e que se sentem profundamente magoadas com a pessoa que esteve no lugar do abusador (a) e que não conseguem olhar sequer no rosto deste (a), o culpando por tudo que deu errado na sua vida; como vejo também pessoas que introjetaram de maneira significativa que ELAS foram culpadas pelo seu abuso, tendo dificuldade, inclusive, de expressar algum sentimento de mágoa ou raiva daqueles que foram autores daquela situação;
- Vejo pessoas que passaram por situações que em alguns manuais descrevem como um abuso sexual potencialmente mais grave - seja por ter uma violência física e ameaças, ou por ser um por um familiar muito próximo, de muita confiança - e que dizem não se sentirem muito afetadas pelo abuso; como também escuto pessoas que tiveram abusos que poderiam ser descritos como “mais leves” e que ficaram altamente marcadas por aquela situação.

Não se tem como generalizar qual será a marca que uma pessoa vai levar consigo ao ter passado por um abuso sexual. Eu falo acima de situações que parecem ser opostas, mas é muito comum encontrar gradações dessas experiências numa mesma pessoa. É possível que algumas pessoas tenham se envolvido em situações sexuais na infância e adolescência e que isso não tenha que, necessariamente gerar um trauma na sua vida. Porém, tenho encontrado pessoas que até reconhecem que esses eventos marcaram e que ainda assim não conseguem falar abertamente sobre isso, que precisam de um tempo para poderem se sentir seguras de entrar nesses porões e ver sentimentos que podem ser muito desestabilizadores, quase que desestruturantes em termos de personalidade.

Já me perguntaram se eu realmente acho válido tocar nesses assuntos depois de tanto tempo do ocorrido, quando parece que, de alguma forma, as coisas já se acomodaram e que a “violência não está mais acontecendo”. Essa não é uma resposta simples. Não é simples dizer que a violência não está acontecendo ainda. Não é simples mensurar o quanto é sofrido o silêncio, o quanto algumas pessoas ficaram isoladas dentro da própria família. Também não é simples medir o quanto a pessoa teve que cindir com várias coisas dentro dela para guardar esta situação somente com ela. E reparem que não estou nem falando de outro dilema que surge em muitas situações onde a pessoa começa a mexer nesses conteúdos: “Devo contar para as pessoas?”. “Vivo sem poder dizer o porquê que eu sempre fui uma pessoa agressiva, depressiva, ou desconectada da minha realidade. Porque, se eu for falar, eu toco num segredo que sei que ninguém quer desenterrar”. Isso também não é simples.

Porém, começar a mexer nisso também traz desafios.. Não é um convite que se resume em “vamos começar a falar sobre isso e você vai ver que tudo se resolverá e rapidamente você estará em paz”. Muitas vezes o que acontece é a pessoa passar por um deserto, onde muitas vezes ela tem vontade de desistir - inclusive algumas já interromperam o processo e não voltaram mais, outras pararam e depois retomaram em seguida - e que eu, enquanto terapeuta, ofereço suporte, confiança no processo, força, e companhia para esses momentos difíceis. Poderia falar muitas coisas desses processos. Fica pra uma próxima.

Apesar de eu observar que algumas mudanças referentes a esta temática acontecem de maneiras mais graduais, com o tempo, tenho sentido e acompanhado com muita alegria processos onde as pessoas estão conseguindo lidar melhor com as suas vidas, com os seus desejos, com os seus passados, e consequentemente com os seus futuros. São essas experiências que têm me dado uma motivação maior de estar encabeçando esse projeto. Apesar de todo cuidado e delicadeza que o tema requer, tenho acreditado que temos que falar mais sobre isso. Sincronicamente tem aparecido cada vez mais casos de pessoas adultas que foram abusadas sexualmente na infância e adolescência nas redes sociais, reportagens, reforçando ainda mais essa intenção que nutrimos há dois anos.


Queria, por fim, convidar vocês a conhecerem um pouco mais do nosso projeto, apresentar o nosso site: revelandoser.org . Para que possamos falar mais sobre isso, quem sabe indicar para pessoas que possam se beneficiar, pessoas que passaram por essa situação, ou profissionais que queiram saber um pouco mais do que estamos estudando, refletindo, produzindo por aqui. Estamos fazendo, pelo menos um encontro mensal para falar do projeto e aprofundar alguns temas relacionados ao nosso objetivo principal. Em breve estaremos oferecendo materiais em formas de encontros com uma maior carga horária e específicos para aprofundar temas que os encontros mais breves não dão conta. Ainda estamos ajeitando algumas coisas, mas, cada passo que a gente vai dando, motiva a gente para fazer ainda mais.
Edit: podem compartilhar à vontade está postagem.

"Olho por olho e o mundo acabará cego" (Gandhi)



Olá pessoas. Eu tenho me sentido muito mobilizado com tudo que está acontecendo em nosso país e queria trazer algumas reflexões que não param de falar dentro de mim há muito tempo. Acho que escrever vai ser até uma forma de organizar mais as ideias e partilhar com mais gente o que eu sinto através das minhas experiências. Espero que os textões que vão começar a aparecer não sejam tão cansativos para quem vai ler…rs.


Um pouco da minha história para resumir bem resumido de onde eu falo. Desde a adolescência que comecei a me envolver com movimentos estudantis e comecei a ter uma preocupação maior com o social, com o coletivo, com a necessidade de se refletir e problematizar a forma como vivemos e quais os desdobramentos desta forma em todas as pessoas. Essa preocupação, junto com uma busca meio precoce de autoconhecimento, me fez escolher a profissão de psicólogo, como uma forma de cuidar mais de mim e das pessoas como um todo.

Na minha trajetória pessoal e profissional, sempre estive em contato com duras realidades de exclusão, desigualdade, marginalidade, violência, etc. Trabalhei com pessoas em situação de rua, com adolescentes em conflitos com a lei e coordenei um projeto social em uma comunidade de baixa renda aqui da cidade de Recife com a temática do abuso sexual. Estas passagens profissionais, juntamente com uma biografia atravessada pelo contato com estas questões, contribuíram para que eu passasse a me questionar e questionar quem estava ao meu redor, a partir de reflexões dentro dos movimentos políticos de esquerda. Mas nunca me filiei a nenhum partido específico.

Quem me conhece um pouco mais de perto sabe que, de alguns anos para cá - mais especificamente desde o começo de 2013 - eu passei a me ausentar mais destas discussões e fui me dedicar a cuidar mais de mim,  a fortalecer meu lugar de psicoterapeuta individual no meu consultório, me dedicar mais a uma conexão com a minha espiritualidade e recolhi um pouco mais a minha veia social e política de maneira mais clara e explícita no meu trabalho, nos meus discursos e problematizações. Porém, nunca deixei de me preocupar e de tecer considerações sobre isso para as pessoas mais próximas e sinto vontade de voltar a estar mais no âmbito público para continuar trocando ideias e quem sabe contribuindo, dentro de minhas limitações, para se mudar tanta coisa que tem acontecido. Não me sinto com metade das leituras necessárias para uma análise mais profunda e verídica que esgote o que tem acontecido no nosso país.Tenho contato direto com pessoas das mais variadas inclinações políticas e tenho me deparado com um sentimento de confusão generalizada que dá margem para posturas também confusas diante dos acontecimentos dos últimos anos. Tenho a impressão de que tem tantas coisas envolvidas nas nossas atuais demandas sociais e culturais que toda vez que vejo alguém fazendo uma análise da realidade, sempre tenho a sensação de que parece ser algo mais complexo do que o que está sendo apresentado. Isso não significa que não temos pessoas muito bem capacitadas e críticas refletindo e tentando levar isso para um número maior de pessoas. Nem que esse esforço não seja legítimo e necessário. Nem tampouco que o que venho trazer agora já não foi falado de alguma forma, ou que vai ser o mais profundo e completo quadro da realidade, abrangendo toda essa complexidade da qual estou falando. Não tenho essa pretensão. Provavelmente será tão limitado ou mais do que outras perspectivas. Porém, ainda assim acho válido tentar contribuir.

Indo direto ao ponto que eu queria abordar neste primeiro post: o que temos feito para melhorar o atual momento que estamos atravessando no nosso país? Tenho pensado muito no movimento de separação, intolerância, aversão, ódio, medo e outras palavras semelhantes que tomou conta de maneira mais explícita a nossa sociedade. (Provavelmente esta postagem não estará salvaguardada de também ser alvo dessa onda. Faz parte.) Ao meu ver, estamos meio embotados, meio cegos por tantos sentimentos de impotência, de desesperança, de injustiça, de julgamento e condenação, de “não quero mais contato com quem pensa diferente de mim”, de querer achar quem é o culpado, o mais alienado, o mais politizado, etc. Ao me deparar com isso, tenho me perguntado como fazer para não ser mais uma gota nessa onda de separação. Como fazer isso sem me abster de participar da vida política? Talvez seja importante refletir que se abster de participar é uma forma de participação, não é possível não estar participando de um momento político. Mas, como não ficar plugado nessa conexão tão destrutiva que todos têm sentido e ainda assim poder dialogar com as pessoas? Ficar calado e dizer que não se interessa por estes assuntos políticos, parece mais como aquela estratégia de avestruz de colocar a cabeça debaixo da terra e achar que ninguém vai ver ficando com o resto do corpo de fora. Mas tenho visto muita gente que quer e pode contribuir com o mundo não se colocando, porque não acham que existe espaço para dialogar com as demais pessoas. Logo parece que, ou você se pluga nessa onda e vai bater boca no facebook ou outras redes sociais, ou você se abstém de participar. Como fazer para não tentar “combater” uma intolerância, reforçando ainda mais essa onda de intolerância que vem crescendo a cada dia? Não falo isso do lugar de concordar com vários discursos e práticas que estão sendo feitas por todos os lados. Só tenho me perguntado se reagir desta forma, como uma boa parte das pessoas que dizem querer melhorar a sociedade está reagindo, está adiantando para uma mudança concreta no rumo que as coisas estão tomando. Eu tenho me perguntado se o movimento de se entrincheirar nesta “guerra”, fazendo uma delimitação clara entre quem é o lado bom e o lado mau da história, tem ajudado a se encontrar soluções criativas e eficazes de mudança. Certa vez, um grande sábio e amigo questionou a eficácia de “lutar” por uma melhoria coletiva sendo intolerante com os intolerantes, injusto com os injustos e impiedoso com os impiedosos. Eu tenho me lembrado dele cada vez mais.

Meu lugar de terapeuta há mais de 10 anos me colocou em contato com pessoas que socialmente falando são “ruins” ou fazem muitas coisas que não são boas. Não chega no consultório somente pessoas felizes, com valores nobres, solidárias, amorosas, e com um senso de justiça social, etc. De uma certa forma lidamos muito com as sombras das pessoas, com a violência, com o egoísmo, com a manipulação, com o individualismo, etc. Porém, na minha prática tenho encontrado luz na sombra, tenho visto que muitas destas mesmas pessoas não tem somente “aquela banda podre”, que têm muitas coisas “boas”, importantes para a sociedade, mas que, perdidos na sua história, não sabem muito como atualizar essas qualidades. Pessoas que estão em busca de algo que todo mundo quer - ser aceito, amado, reconhecido, ser feliz, crescer e se realizar - mas que, diante de alguns contextos, encontraram formas e arranjos muito diferentes para sobreviver. Muitos desses arranjos são opostos ao que se entende como bom para a sociedade e é preciso que não se tenha uma visão romântica de não levar isso em consideração. Mas essa prática profissional me coloca em contato com essa complexidade que falei mais acima. Ninguém é só luz ou só sombra: tem muito mais coisas em jogo do que colocamos nos nossos desabafos e análises nas redes sociais sobre quem são os vilões e mocinhos das nossas histórias. Tenho achado que parece simplista reduzir uma pessoa a ser uma pessoa má, porque ela cometeu algum delito que dentro do contexto da vida dela, tem algum sentido. Isso não faz com que ela não tenha que arcar com as consequências do delito. Mas isso não desumaniza a pessoa, não coloca ela no lugar de que ela é somente aquilo que ela fez. Estou falando isso numa esfera individual, mas no coletivo isso é ainda mais complexo. Também me parece simplista reduzir uma pessoa que vota em Lula ou em Bolsonaro, tal como temos feito o tempo todo nas nossas comunicações, como alienado, canalhas, fascistas, comunistas, ou que merece ser desprezado, ou que quer ver o país se afundar, entre tantos outros jargões. Falei lá em cima que me aproximei e desenvolvi parte das minhas reflexões a partir de um viés político de esquerda. Atualmente tenho pensado se ainda me identifico com esse lugar social. Não por discordar de que muitas das bandeiras que são encabeçadas por estes movimentos são importantes. Mas porque, diante do aumento da intolerância de todos os movimentos - direita, esquerda, de centro, conservador, liberal, capitalista, socialista, comunista, etc. - me parece que eu gostaria de encontrar um lugar que fosse mais inclusivo, que me unisse mais às pessoas do que me cristalizasse ainda mais em uma polarização que não faz mais sentido para mim.

Lembra uma definição de ética que ouvi na faculdade uma vez. Era algo mais ou menos assim: “Ética é incluir o maior número de pessoas naquilo que chamamos de nós”. Quem trazia isso era o Jurandir Freire Costa, trazendo uma reflexão sobre como tratamos de maneira muito diferente as pessoas que aproximamos simbolicamente do NÓS mesmos e AQUELES que são os OUTROS. Muitos dos sentimentos ruins que acusamos que os OUTROS têm contra NÓS, passamos a reagir nutrindo estes mesmos sentimentos contra esses OUTROS. Mas, e se esses OUTROS também fossem tão humanos quanto NÓS? Como seria minha postura se eu tivesse que aceitar que a situação é muito mais complexa? Por mais resolutivo e embasador para uma luta social que seja, uma análise que tende a simplificar essa complexidade, deixa de fora pontos importantes e desumaniza quem está do outro lado da trincheira, fazendo que continuemos nessa luta eterna do “bem contra o mal”. Como seria o meu discurso, caso eu tentasse entender que - por mais bizarro que possa parecer aquele meu amigo de infância, aquele meu familiar, ou a pessoa distante do trabalho - o diálogo ainda é uma alternativa possível e talvez, extremamente necessária, para se produzir união ao invés de separação?

Tenho lembrado da famosa estratégia do “Dividir para conquistar”. Parece tão mais fácil para quem está no poder conseguir subjugar um povo, uma nação quando ela está cindida, dividida, separada, sem conseguir se comunicar. Sinto que é muito difícil sentar para ouvir as “asneiras” que o eleitor do Lula tem para falar, caso você já tenha decidido que nada de bom pode vir de lá. Bem como deve ser muito difícil escutar o que o eleitor de Bolsonaro tem para argumentar sobre como vai ser bom ter ele como presidente. Para mim, tem parecido que, independente da capacidade crítica de cada lado, quem está certo ou errado, se usarmos as análises políticas para gerar ainda mais separação, mais desumanização, estamos, enquanto sociedade, perdendo um pouco mais essa “guerra”. Parece que todos os lados se dizem muito racionais em suas análises e justificativas. Mas, talvez, pudéssemos refletir se por trás dos nossos discursos objetivos, não estamos carregando eles de toda sorte de emoções reprimidas e desagregadoras que geram essa cegueira que falei lá em cima. Cegos para uma possibilidade de ainda pensar o que seria melhor para aquele NÓS maior, fazendo com que recorramos a estratégias muito mais passionais, excludentes, partidárias e parciais de saídas para essa crise.

A direita é apontada como a mais opressora, sem diálogos, autoritária, etc. Mesmo buscando não me cristalizar nos lados, como eu falei, tendo a concordar com isso, que tradicionalmente encontramos na direita esse comportamento. Porém, me pergunto se a mudança desse estado atual se dará quando a esquerda, que é mais favorável e aberta ao diálogo, se igualar em intransigência e parta para ser tão violenta quanto AQUELES que ela busca “combater”. Não quero dizer que é preciso desistir da mobilização, da manifestação, da busca de solução. Porém que o motor que me move nessa luta, não seja alimentado pelo mesmo combustível que move o que eu quero tanto “combater”. Tenho me perguntado se não seria mais “humanamente útil” tentar “desplugar” da energia de guerra e continuar buscando formas de mobilizar e melhorar a situação. Lembro que quando eu era muito raivoso e intolerante dentro dos meus pensamentos, (basta ver as postagens anteriores) sentia que era quase impossível continuar com forças para lutar, sem ser alicerçado no meu sentimento de revolta ou raiva. Parecia que tirar isso de mim, era como tirar o que me movia. Levei alguns anos para tentar encontrar esse outro lugar. Nem sei ainda se já o achei, mas esse texto é mais uma tentativa de colocar essa aposta em prática.

Como contextualizei no início, estava meio afastado de algumas discussões e posso parecer bem rasteiro ao falar o que quero nesse parágrafo de agora. Porém, talvez ele seja ilustrativo do que eu quero dizer. Na primeira panelada que se teve no país, vi a esquerda tentando alertar o golpe que estava acontecendo ou por vir. Acredito que muita gente que bateu panela de verde e amarelo, não tinha muita ideia do que estava acontecendo e que muita gente foi manipulada mesmo. Porém, ao acontecer todo o desmantelamento que se sucedeu depois desses eventos, sinto que algumas pessoas que bateram panelas quiseram rever o seu posicionamento por perceberem a manipulação e o engano. Não sei se elas passaram a achar totalmente que era golpe ou que tudo o que a esquerda falava era verdade, mas vi uma certa abertura para se questionar onde estava a verdade, inclusive uma possibilidade de reflexão sobre a influência negativa da mídia e dos movimentos que se diziam apartidários, quando que não eram. Achei que aquele era  um momento propício para um movimento de maior união e diálogo entre pessoas que estavam em trincheiras opostas. Porém, com uma certa tristeza, fui vendo como muitas pessoas de esquerda, que sei que têm um compromisso em querer melhorar a sociedade para todos de verdade, não conseguiram abrir mão da raiva, do orgulho, do sentimento de “ir a forra” e foram julgando, criticando, desumanizando pessoas que poderiam se aproximar de um diálogo. Muitos “paneleiros”, “patos” podem ter ficado sem lugar para se abrigarem socialmente nessa “guerra” por terem sido tão execrados pela esquerda, como a própria esquerda acusa a direita de fazer. Sei que a análise pode ser bem mais complexa do que isso, mas ainda assim me pergunto se ainda não estamos fazendo isso nesse momento onde a crise se agravou ainda mais. Lógico que, enquanto alguém que se identifica mais com as causas da esquerda, também foi muito doído e revoltante para mim ver tantas coisas acontecerem. Ver, por exemplo, aquela votação bizarra, com justificativas ainda mais bizarras, de quando votaram a favor do impeachment da Dilma. Imagino o quanto deve ter doído para quem tanto já lutou para conseguir coisas melhores para o país ver o que aconteceu e prever o que estava e ainda está por vir. Mas ainda assim, tenho me perguntado até onde vamos precisar chegar, enquanto tempos sombrios da sociedade, para poder repensar se continuar se entrincheirando é o melhor a fazer. Tenho me perguntado se as trincheiras que estão de maneiras mais rígidas atualmente não nos colocam em um lugar de “certezas absolutas” sobre si e sobre o outro que dão margem a esses sentimentos que promovem essa cegueira diante do outro?

Observo que no meu texto, eu falo muito das perguntas que tenho me feito e menos das respostas que cheguei depois delas.  Isso fica para outro momento. Tenho ideias e projetos que estão sendo gestados e pensados a partir dessa intenção de gerar mais união e contribuir, influenciar nesse todo. Vou trazendo aos poucos.

Por fim, não quero com tudo isso que escrevi encontrar uma outra trincheira, a saber, a trincheira dos não-entricheirados. Não sei se ficou claro, mas, no momento atual, sinto que as cristalizações estão mais a serviço do desmonte da sociedade do que da busca de uma solução inclusiva para todos. Esta frase me parece até redundante, pelo simples fato de não saber dizer se existe alguma outra solução possível que não seja a “inclusiva para todos”, incluindo até AQUELES OUTROS que tenho tanto considerado como meus inimigos.